Constelações
Constelações: como o céu foi dividido em 88 regiões
Mais do que figuras formadas por estrelas, as constelações são áreas oficiais do céu, com fronteiras definidas, que funcionam como endereço de qualquer objeto celeste.
Equipe editorial do Avantgarde Astronomia 9 minutos de leitura Atualizado em 4 de setembro de 2026
O que você vai aprender
- Por que uma constelação é uma região do céu, e não apenas um desenho
- Como localizar o Cruzeiro do Sul e usá-lo para achar o sul geográfico
- O que as constelações indígenas brasileiras revelam sobre o céu
- Onde a astronomia termina e a astrologia começa
O que é uma constelação
Em uma noite escura, longe das luzes da cidade, é quase inevitável começar a ligar pontos no céu. Nosso cérebro adora padrões, e as estrelas oferecem matéria-prima de sobra. Foi assim que nasceram as constelações: figuras imaginadas por povos de todos os continentes para dar ordem ao que enxergavam acima de suas cabeças.
A astronomia moderna deu a essa ideia antiga um sentido mais preciso. Hoje uma constelação não é o desenho, e sim uma região delimitada da esfera celeste. Cada pedaço do céu pertence a uma, e somente uma, dessas regiões, assim como cada ponto do território brasileiro pertence a um estado.
A diferença aparece na prática. Quando um astrônomo diz que certa galáxia está em Virgem, ele não afirma que ela faz parte de um desenho de mulher com uma espiga de trigo. Ele informa um endereço: aquela direção do céu, dentro das fronteiras daquela área. As figuras seguem úteis para quem aprende a se orientar, mas elas são o apelido do bairro, não a linha do mapa.
A divisão oficial em 88 áreas
Até o começo do século 20, o céu era uma bagunça organizada. Cada atlas trazia suas próprias figuras, algumas herdadas da Antiguidade, outras inventadas por astrônomos que queriam homenagear reis, instrumentos científicos e até animais exóticos. Havia sobreposições, nomes duplicados e regiões sem dono.
A União Astronômica Internacional resolveu padronizar. Ficaram estabelecidas 88 constelações, e as fronteiras entre elas foram definidas em 1928, sendo publicadas em detalhe pouco depois. O critério adotado foi elegante: as divisas seguem linhas de ascensão reta e declinação, as coordenadas do céu, calculadas para uma época de referência do século 19.
Por causa dessa escolha, os limites formam degraus retos, como as bordas de estados no interior do Brasil. E como o céu gira lentamente ao longo dos séculos, hoje essas linhas aparecem levemente inclinadas nas cartas atuais.
Boa parte das regiões austrais só pode ser vista por completo do nosso hemisfério. O céu austral, aliás, só entrou nos catálogos a partir das grandes viagens marítimas.
As estrelas de uma constelação não são vizinhas
Aqui está o mal-entendido mais comum sobre o assunto. As estrelas que formam uma figura no céu quase nunca têm relação entre si. Elas apenas coincidem na mesma direção quando olhamos da Terra, e podem estar a distâncias radicalmente diferentes.
O cinturão de Órion, que os brasileiros chamam de Três Marias, é um bom exemplo. As três parecem irmãs, igualmente espaçadas. As estimativas mais aceitas colocam duas delas a algo em torno de 1.200 anos-luz e a terceira consideravelmente mais longe, além de 1.500 anos-luz. Esses valores são aproximados e vêm sendo revistos conforme as medidas de distância melhoram.
Em Centauro o contraste é ainda maior. Alfa Centauri está a cerca de 4,4 anos-luz, entre os sistemas mais próximos do Sol, enquanto vizinhas aparentes dela estão centenas de vezes mais distantes.
Uma analogia ajuda: pense nas luzes de uma cidade vistas de um mirante. Duas parecem coladas uma na outra, mas uma pode estar num poste próximo e a outra num prédio a quilômetros. O céu é isso, levado ao extremo.
Asterismos: os desenhos dentro das regiões
Nem todo agrupamento famoso de estrelas é uma constelação. Quando um conjunto de estrelas forma uma figura reconhecível, mas não corresponde a uma das 88 regiões oficiais, os astrônomos o chamam de asterismo.
As Três Marias são um asterismo dentro da constelação de Órion. O grande carro, ou a carroça, é um asterismo dentro da Ursa Maior. O chamado triângulo de verão, formado por três estrelas brilhantes de constelações diferentes, também entra nessa categoria.
Há um caso que costuma confundir: as Plêiades, conhecidas no interior do Brasil como sete-estrelo. Elas não são asterismo nem constelação, e sim um aglomerado aberto, um grupo de estrelas que realmente nasceram juntas e seguem ligadas pela gravidade.
Para quem observa, a distinção importa pouco no primeiro momento. Asterismos são justamente as formas mais fáceis de decorar, e servem de ponto de partida para reconhecer as regiões maiores ao redor.
O céu do hemisfério sul e o Cruzeiro
Quem vive no Brasil tem um privilégio. Do nosso lado do planeta é possível ver o centro da Via Láctea alto no céu de inverno, além de objetos que os observadores do norte nunca alcançam bem.
O símbolo desse céu é o Cruzeiro do Sul, a constelação de Crux, a menor das 88 em área. Suas quatro estrelas principais formam uma cruz um pouco irregular, com um braço mais longo que o outro. Esse detalhe é justamente o que a torna uma bússola.
Como achar o sul
Prolongue mentalmente o braço maior da cruz, da estrela do topo em direção à do pé, e siga aproximadamente quatro vezes e meia esse comprimento. Você chega a uma área pobre em estrelas brilhantes, que marca o polo sul celeste. Baixe uma linha vertical dali até o horizonte: ali está o sul geográfico.
Perto do Cruzeiro brilham as duas estrelas mais luminosas de Centauro, que apontam para a cruz e ajudam a confirmar a identificação.
Zodíaco, astronomia e astrologia
Ao longo do ano, o Sol parece percorrer uma faixa estreita do céu chamada eclíptica, que é o plano da órbita da Terra projetado entre as estrelas. As constelações atravessadas por essa faixa formam o zodíaco.
A astronomia observa um fato simples: a eclíptica cruza treze das 88 regiões oficiais, incluindo Serpentário, que está fora da lista tradicional de doze signos. Além disso, o eixo da Terra gira devagar, movimento chamado precessão, com período de cerca de 26 mil anos. Por isso as datas dos signos não coincidem mais com a posição real do Sol.
Vale separar as coisas com clareza e sem desrespeito a ninguém. A astrologia é uma tradição cultural antiga e influente, mas não é ciência: suas previsões não resistem a testes controlados e não existe mecanismo físico conhecido que ligue a posição aparente das estrelas ao destino de uma pessoa.
A astronomia herdou os nomes do zodíaco e os usa apenas como coordenadas. O mesmo céu, duas leituras muito diferentes.
As constelações indígenas brasileiras
O céu que aprendemos na escola veio em grande parte da tradição greco-romana. Mas os povos originários do Brasil desenvolveram, muito antes disso, sistemas próprios de leitura do céu, ligados ao clima, à agricultura, à caça e à pesca de cada território.
Um exemplo bem documentado é a Ema, reconhecida por povos de tradição tupi-guarani. Sua cabeça é o Saco de Carvão, a mancha escura vizinha ao Cruzeiro do Sul, e o corpo se estende por estrelas de Escorpião. Quando ela surge inteira no início da noite, anuncia a chegada da estação seca em boa parte do país.
Outra é o Homem Velho, que reúne estrelas de Touro e de Órion, incluindo as Três Marias. Seu aparecimento no leste, no fim do ano, marca o começo das chuvas e da época de plantio em várias regiões.
São conhecimentos vivos, transmitidos por gerações e estudados hoje em parceria com pesquisadores indígenas e não indígenas. Não são versões pitorescas do céu europeu: são calendários independentes, construídos por observação atenta.
Como começar a observar sem instrumentos
A boa notícia é que os olhos bastam. O que faz diferença não é equipamento, e sim escuridão, paciência e um pouco de método.
Procure um local afastado de postes e janelas iluminadas, com horizonte livre para o sul. Dê aos olhos ao menos vinte minutos para se adaptar ao escuro e evite olhar telas nesse tempo. Noites sem Lua, especialmente na estação seca, oferecem o céu mais nítido.
Para medir distâncias no céu, use as próprias mãos com o braço estendido. O punho fechado cobre cerca de dez graus, e o dedo mindinho, cerca de um grau. É assim que se prolonga o braço do Cruzeiro sem precisar de instrumento nenhum.
- Comece com duas ou três referências fáceis, como o Cruzeiro do Sul, Órion e o Escorpião
- Volte ao mesmo local em noites diferentes e note como as estrelas se deslocam
- Anote o que viu e a que horas viu, para perceber o ritmo das estações
Depois de algumas semanas, o céu deixa de ser um borrão de pontos e passa a ter geografia.
Perguntas frequentes
As estrelas de uma constelação estão próximas umas das outras?
Quase nunca. Elas apenas aparecem na mesma direção quando vistas da Terra, mas podem estar a distâncias muito diferentes de nós. A figura existe apenas do nosso ponto de vista.
Quantas constelações existem e quem definiu esse número?
São 88 regiões oficiais reconhecidas pela União Astronômica Internacional. As fronteiras entre elas foram definidas em 1928, seguindo linhas de coordenadas celestes.
É possível ver todas as 88 constelações do Brasil?
Não a partir de um único lugar. Do território brasileiro se vê a maior parte delas ao longo do ano, mas algumas regiões próximas ao polo norte celeste ficam permanentemente abaixo do horizonte.
Qual a diferença entre constelação e asterismo?
A constelação é uma das 88 regiões oficiais do céu, com fronteiras estabelecidas. O asterismo é apenas uma figura reconhecível de estrelas, como as Três Marias, que pode estar contida em uma constelação.
Os signos do zodíaco correspondem às constelações no céu?
Não mais. A eclíptica cruza treze constelações, e a precessão do eixo da Terra deslocou as datas tradicionais em relação à posição real do Sol. A astrologia, além disso, não é uma ciência.
Fontes consultadas
- União Astronômica Internacional — As constelações
- União Astronômica Internacional — Nomes de estrelas
- NASA Ciência — Estrelas
- Observatório Nacional
- ESO — Portal público
Distâncias, massas, temperaturas e contagens citadas ao longo do texto são valores aproximados, sujeitos a revisão conforme novas observações. Encontrou uma imprecisão? Veja como avisar.